terça-feira, 17 de março de 2009

O dificil exercício de Relativizar...



Existe um texto na área de Antropologia, de Roberto DaMatta ,que eu acho que cabe muito bem em vários aspectos de nossa vida. Neste texto o autor disserta sobre o exercício de relativização no intuíto de compreender o universo do Outro no momento em que o Antopólogo vai a campo. E uma das coisas que estou aprendendo nesta jornada de academia e movimento: o quando é difícil este exercício de entender o universo do outro, de fazer este exercício de distanciar ou familiarizar. Principalmente quando lidamos com uma das grandes feridas da sociedade brasileira que é o racismo, ou quando decidimos participar do Movimento Negro, ou assumir uma bandeira de luta da causa negra. Por exemplo,como é difícil ouvir de pessoas não negras e até mesmo de negras "que o próprio negro é mais racista que o branco". E nesse momento que dá vontade de pular no pescoço, dá vontade dizer "Tu não sabe o que tu tá falando !", é que devemos exercitar este tal relativizar. Entender que existe um racismo estrutural , que nossa sociedade se alicerça em pilares ideológicos brancos, que passamos por uma ideologia de branqueamento que transformou a palavra e o ser negro como algo negativo e pejorativo. No entanto relativizar não significa tolerar, é respirar fundo... e discordar. Mas discordar não culpando o outro e sim argumentar e propor que o outro se ponha em nosso lugar, fazendo-o também relativizar. Percebendo que se não refletirmos sobre essas questões vamos continuar a fortalecer esta estrutura que dividi o Brasil em uma minoria de ricos brancos e uma maioria de negros pobres. Perceber que fomos todos afetados , mas também somos todos responsáveis ou pela mudança de postura ou permanência desta ideologia. Em fim, relativizar é exercitar a paciência, mas nunca calar-se e aceitar palavras e expressões que foram inventadas para a manutenção de algo que fere a dignidade de muitos e enchem os bolsos de poucos.

DAMATTA, Roberto. Relativizando: Uma Introdução à Antropologia Social. 4ªed.Rio de Janeiro: Zahar, 1990. 248p
Observação: A foto ao lado é representação do Orixá Ogum e como tava falando de militancia achei legal coloc-a-lo ainda mais que hj é terça-feira.A ilustração foi extraídos do livro Os Orixás, publicado pela Editora Três. http://br.geocities.com/umbandaracional/ogum.html

Um comentário:

  1. Relativizar tb é uma oportunidade de fazer o outro perceber que existe um conhecimento por tráz da idéia, por tráz do engajamento em um movimento negro por exemplo, não é a toa! Em nossas áreas, nossos campos, não conhecemos tudo, e muito menos de tudo um pouco, somos muito analfabetos em muitos temas. A capacidade de manter a calma, relativisar e argumentar, ou discutir é fazer o outro perceber que existe fundamento, embasamento no que fazemos ou ao menos dizemos, é um desafio muitas vezes difícil de alcançar. Praqueles que tem esta capacidade fica a benção de poder expor suas idéias com mais permeablidade, talvez até com mais qualidade ao próximo. Na maioria das vezes não tenho essa capacidade, tenho a calma de ouvir, mas uma boa dose de dificuldade de contra-argumentar, de defender minhas idéias... Acho que só o exercício nos melhora esta capacidade!

    Um abração Carlinha!

    ResponderExcluir